terça-feira, 18 de maio de 2010

Você não sabe o que é dor


Quando estava na quinta série, eu acho, conhecia um garoto que vivia sempre com algum osso quebrado. Era pequeno, estava na terceira ou segunda série, branco como uma página do Google, com olhos azuis e cabelos lisos, negros e caídos na testa. É, não era um tipo de criança que você esbarra sempre na rua. Mas o que chamava a atenção nele era o fato de sempre estar com um gesso no corpo. Uma semana era na perna direita, na outra no braço esquerdo, na outra na perna esquerda, na outra nos dois braços... Sempre, mas sempre com um osso quebrado. E observava isso nele desde da minha quarta série.

Duas hipóteses passavam na minha cabeça: primeiro que ele era um verdadeiro capeta e que sempre encontrava um jeito de quebrar alguma parte do corpo, a segunda que os pais deles eram uns capetas que sempre especavam o coitado até quebrar um osso dele. Essa minha ultima alternativa sempre foi considerada improvável, pois sabia que se fosse isso a escola já teria tomado alguma atitude. Mas bem, a duvida continuou comigo por um ano até que, uma dia sentado na arquibancada da Escola Municipal de Ensino Fundamental Eber Louzada Zippinotte, tive a oportunidade de pergunta a ele o motivo de tantos ossos quebrados, e foi então que ele disse: “Ah, é que tenho osteogênese imperfeita”. Até o momento aquilo foi o suficiente para a minha curiosidade, mas como é ela a culpada pela morte do gato, não me contive com o nome cientifico complicado e dei uma olhada no Google, lembro até que acabei no artigo da Wikipédia que esta inalterado até hoje. Lá aprendi que ela causa a incapacidade da pessoa criar colágeno, o que deixa seus ossos frágeis, por isso o motivo de tantas fraturas. Pensar que ele quebrava seus ossos freqüentemente me despertou um sentimento responsável pela evolução humana: a pena. Nunca quebrei um osso na vida, mas já cheguei a ficar com um braço imobilizado por causa de uma “pequena” desavença com um ônibus, mas imagino que uma fratura por semana deve ser bem dolorida.

É... A curiosidade também matou a minha apatia naquele instante. Foi aí que me dei conta de algo interessante sobre a vida: não importa o quão grande seja a sua dor, sempre haverá alguém que sofre mais que você. Mas isso não é motivo para desistência. Pelo contrario, sempre que estou sofrendo por algo ou tenho que fazer algo que me faça sofrer, eu me lembro desse garoto que nunca demonstrou uma lágrima de tristeza no seu rosto apesar de suas dores e procuro forças para seguir em diante. A vida é essa, todos sofrem, mas todos encontram uma maneira de seguir a diante. Se você acha que a vida é injusta demais com você, experimente quebrar um osso a cada semana que talvez você saberá o que é dor.

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